Carlos Morgadinho

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Número: 154
Data: SEXTA-FEIRA 20 DE JULHO 2007
Título: OS IMPÉRIOS DO DIVINO ESPIRITO SANTO

Os Impérios do Divino Espirito Santo

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Império do Outeiro - Conceição, Angra do Heroísmo (1670) -Trata-se do Império mais antigo da Ilha Terceira e quiçá um dos primeiros, senão o primeiro, a ser construÍdo nos Açores.

Após a reportagem das festas populares de S. João da cidade de Angra do Heroismo, por todos nós conhecida por Sanjoaninas, já publicadas no semanário Post Milénio nestas ultimas edições, apresentamos um pequeno trabalho de pesquisa sobre os Impérios do Divino Espirito Santo da ilha Terceira e das festividades da Semana Cultural de Velas, na Ilha de S. Jorge. Queremos mais uma vez agradecer à edilidade de Angra do Heroismo, na pessoa do seu presidente, José Pedro Parreira Cardoso, e às firmas Vistasol Tours, New Casa Abril Restaurant & Catering, Toledo Graphics e Santos Water Service & Drain, pelo total apoio, e patrocínio também, na nossa deslocação aos Açores para cobrirmos aquelas festividades, bem como outros trabalhos efectuados e entrevistas que serão publicadas, atempadamente, num futuro próximo. Para todos eles, os nossos patrocinadores, um muito obrigado e bem hajam.

OS IMPÉRIOS DO DIVINO ESPIRITO SANTOS NA ILHA TERCEIRA

Com as primeiras famílias de colonos que vieram habitar os Açores após a sua descoberta no século XV, vieram as tradições etnográficas, a religiosidade, as crenças e um conjunto de factores que devido à insularidade das ilhas não permitiu grandes alterações até aos nossos dias. Neste parâmetro temos o Culto ao Divino Espírito Santo com muito poucas alterações desde esses tempos remotos. No presente, onde as ligações por barco e mais destacadamente por meio dos aviões, entre a Europa ou Américas com os Açores, não levou o povo açoriano a abandonar, como aconteceu no Continente ao longo dos séculos, esta crença e devoção à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, que foi iniciada, segundo a lenda, nos tempos da Rainha Santa Isabel, esposa do nosso Rei D. Dinis. Os açorianos souberam sempre manter bem viva esta chama na devoção ao Divino.

Mas se olharmos pela Diáspora açoriana temos a prova da preservação deste Culto dos Açores mesmo daqueles que, no século XVII, emigraram para outras terras à procura de melhor futuro. Assim, por exemplo mais marcante, no Estado de Santa Catarina, no sul do Brasil, existem cidades onde as maiores festividades estão ligadas ao Divino Espirito Santo, e muitas delas, como São José de Terra Firme, não existe diferença alguma com as que são realizadas nos Açores. Tudo, mesmo tudo, é uma cópia viva das que se realizam, nos nossos dias, por todas as ilhas açorianas, das quais destacamos as coroações, os estandartes, o Bolo de Leite, as filarmónicas, o cantar de porta em porta (por muitos conhecido por Pezinho) e outras tradições que não se diluiriam com o passar de mais de três séculos. Nos Estados Unidos da América do Norte onde as gentes açorianas se fixaram há mais de cem anos, tanto no Estado da Califórnia como na Nova Inglaterra, realizam-se por toda a parte, onde há açorianos, as festas em devoção ao culto do Divino Espirito Santo, sendo no presente a maior manifestação de fé fora do espaço físico da Região dos Açores, e que se realizam na cidade de Fall River, em Massachussets, onde anualmente se concentram mais de 150 mil devotos vindos, na sua maioria vindos, de cidades e vilas daqueles Estados à beira do Atlântico (Massachusets, Rhode Island, Connecticut, New Jersey, New York, New Humpshire e até do Canadá, principalmente das Provinciais do Ontário, Manitoba e Quebec).

Mas voltando aos Açores queremos dizer que em todo o arquipélago é na ilha Terceira onde as festas de devoção ao Divino Espirito Santo toma proporções maiores, tão grandes que tomamos a liberdade de afirmar que é, na prática, a continuação das celebrações da Páscoa, com o seu auge no Dia de Pentecostes onde se celebra em dois Domingos de Bodo, e do ressuscitar de Jesus, com a descida do Espirito Santo sobre os apóstolos. No entanto, em muitas freguesias daquela ilha, esta festividade é estendida para outros dias do ano.

Desde a povoação dos Açores, por gente do reino, após a sua descoberta pelos navegadores portugueses, que o Culto ao Divino foi a principal fonte da crença religiosa cristã até porque os cataclismos, na forma de terramotos e actividade vulcânica que se fazia sentir periodicamente, incutia o temor nas populações pelo que estas se refugiavam na fé e nas orações ao Divino Espirito Santo para desta forma obter a clemência do Criador e assim serem poupados da destruição e da morte.

Por todas as ilhas existem pequenas capelas, na sua maioria na vizinhança das igrejas, onde os seus interiores são decorados sobriamente com um altar coberto por cetim imaculadamente branco e com flores frescas e aromáticas onde se encontra uma coroa de prata e ceptro que simboliza o poder da Trindade. Mas é na ilha Terceira onde existe a maior quantidade de Impérios, cerca de 70 se não estamos errados, com algumas freguesias com dois e três, como é, neste ultimo caso, a Ribeirinha. Todos estes Impérios começaram a ser edificados nos fins do século XVII e hoje quase na totalidade são de pedra ou bloco, materiais que substituíram os mais antigos então edificados em madeira dando-lhe uma maior consistência e segurança. Também há algo que diferencia estes Impérios dos outros espalhados pelas restantes ilhas, pela pintura das paredes exteriores, de cores garridas e terem, todos eles, apenas duas janelas e uma porta na fachada principal sobre a qual se encontra normalmente uma coroa embora os haja com uma pomba, o simbolo do Espirito Santo. Normalmente a área do interior não ultrapassa os 30 metros quadrados e muitos destes Impérios têm outra pequena adição, chamada de dispensa, onde é armazenado o pão, a carne e o vinho bem como outros materiais relevantes para os festejos.

Abaixo apresentamos uma lista, por ordem de antiguidade dos Impérios, e os nome por que são conhecidos bem como a data de erecção:

Império do Outeiro (1670); Império da Rua Nova (1799); Império de S. Carlos (1814); Império do Cabo da Praia (1858); Império do Cantinho (1860); Império da Terra Chã (1861); Império de Santa Luzia de Angra (1871); Império dos Biscoitos (1872); Império de São Mateus (1873); Império de Agualva (1873); Império de Santa Luzia da Praia (1875); Império de S. Braz (1875); Império de S. Bartolomeu (1875); Império de Santa Bárbara (1876); Império dos Pescadores, Praia (1877); Império de S. Pedro na Rua de Trás (1877); Império do Raminho (1880); Império da Ribeira Seca (1882); Império das Quatro Ribeiras (1885); Império do Pico da Urze (1885); Império das Cinco Ribeiras (1886); Império de S. Bento (1886); Império de S. João de Deus (1887); Império da Casa da Ribeira (1888); Império de Santa Rita (1888); Império das Fontinhas (1888); Império do Posto Santo (1888); Império de S. Luís – Vale de Linhares (1893); Império da Vila Nova (1894); Império do Corpo Santo (1895); Império da Ribeirinha (1898); Império da Guarita (1901); Império do Porto Martins (1902); Império dos Altares (1903); Império de S. Pedro dos Biscoitos (1909); Império da Serra da Ribeirinha (1911); Império de Santo Amaro (1913); Império da Fonte do Bastardo (1913); Império das Lajes (1916); Império dos Quatro Cantos (1916); Império do Porto Judeu de Baixo (1916); Império de S. Sebastião (1918); Império das Mercês, Feteira (1921); Império da Serreta (1922); Império da Ladeira Grande (1925); Império da Ladeira Branca (1926); Império da Feteira (1928); Império das Tronqueiras (1930); Império do Porto Judeu de Cima (1933); Império do Galinho, Porto Judeu de Cima (1933); Império do Lameirinho (1945); Império do Arco, Vale de Linhares (1951); Império do Espigão (1954); Império da Caridade, Figueiras do Paim, Praia da Vitória (1954); Império da Canada de Belém (1958); Império dos Regatos, S. Bartolomeu (1958); Império da Boa Hora (1958); Império das Bicas (1958); Império dos Remédios, Corpo Santo (1959); Império da Grota do Medo (1960); Império da Serra de Santiago (1964); Império de S. Pedro, Santa Rita (1973); Império do Rossio, Praia (1975); Império das Doze Ribeiras (1989); Império Conde Siuve de Meneses, S. Pedro (1989); Império do Bairro do Lameirinho (1991); Império do Bairro da Terra Chã (1993); Império da Sta. Casa da Misericórdia de Angra (1998).

Dizemos que vale a pena peregrinar pelas freguesias da ilha Terceira em busca destes Impérios que nos deixam fascinados não pela grandeza arquitetónica mas sim pela simplicidade embora rico em trabalho decorativo das suas fachadas e, acima de tudo, pelas cores com que são pintados, mesmo berrantes assemelhando-se por vezes alguns às cores do arco iris. Durante as festas em louvor ao Divino Espirito Santo que já assistimos por diversas vezes durante as visitas que efectuamos àquela ilha maravilhosa e de gente hospitaleira, como em Altares, S. Pedro, Vila Nova e outras, a azafama é total e constante das mordomias e seus voluntários com Missa solene que inclui as coroações de crianças e jovens, o desfile do Bodo de Leite que é sempre acompanhado pelo pároco da freguesia, a distribuição de pensões e do pão e do leite, os concertos pelas bandas filarmónicas, os cantadores da terra durante o pesinho que de casa em casa agradecendo a hospitalidade destes e onde lhes são servidos comida regional, as arrematações de ofertas no átrio defronte desses Impérios, a festa, o folclore e claro o almoço colectivo das sopas do Divino Espirito Santo onde centenas para não dizermos milhares de pessoas que se sentam em extensas mesas e onde são servidos a sopa, carne, vinho e pão a quantos desejarem receber.

É uma festa onde não só se destaca a religiosidade no culto ao Divino Espirito Santo mas também se perpetuam os valores da caridade e da fraternidade com acções de ajuda aos mais carenciados, a um nosso irmão, amigo, vizinho, idoso, criança desprotegida, enfermo, etc. e assim ser incutido e preservar estas virtudes do amor ao próximo, uma doutrina que Jesus nos deixou quando andou, há mais de dois mil anos, cá pela Terra, lições essas que estão, dia-a-dia, a serem olvidadas por todos nós e substituídas pelo materialismo, tecnologia e outras “maravilhas” da vida moderna e que, a passos largos, vai degradando moralmente, e fisicamente também, a humanidade.


Carlos Morgadinho
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