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OPINIÃO

DOMINGO 04 DE AGOSTO DE 2019  

É preciso que tudo mude para que algo fique na mesma

Catarina Carvalho

Dizem os clássicos que é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma. Tem sido assim na política - que tem horror ao vazio quase tanto como às revoluções. É talvez mais fácil fazer as coisas como sempre se fizeram. Fluírem sem entropias. E saber com o que conta.

Mas talvez tenhamos chegado a tempos em que já não possa ser assim. Diz-nos o mundo - em mudança cada vez mais acelerada, das alterações climáticas às estruturas do trabalho. Dizem-nos os votantes - cada vez menos, mais dispersos. E essa frase clássica está mesmo a precisar de uma correção, antes que o corte seja tão radical que provoque danos, até na democracia. É preciso que tudo mude para que alguma coisa fique na mesma discussão que tem percorrido os media sobre as listas de deputados às legislativas dá-nos bem a medida do que está em causa - são meros instrumentos de poder.

Umas eleições são boa altura para mudar. Um recomeço que permite um afinar de propostas, mas também mudar de caras. Mesmo não tendo círculos uninominais, não se percebe a voluntária anonimidade a que se votam os deputados - a eleger e depois eleitos. Poucos conhecemos, ainda menos sabemos o que pensam, que mais-valia trazem à discussão política.

No Reino Unido do Brexit vimos desfilar pelos órgãos de comunicação social uma série de membros do Parlamento inglês e as suas opiniões vincadas, abalizadas, explicadas. Nem todos eram estrelas mediáticas, mas todos prestavam contas sobre o que estavam a fazer - ou o que pensavam.

A discussão que tem percorrido os media sobre as listas de deputados às legislativas dá-nos bem a medida do que está em causa - são meros instrumentos de poder. Do poder interno, tantas vezes o mais mesquinho. Quem o tem, dentro do partido, usa-o. E, como também nos explicam os clássicos, estar do contra dentro de um partido pode ser mais perigoso e frustrante do que estar simplesmente na oposição. O poder agrega e afasta. E ficar de fora ou dentro de uma lista parece ser muito mais dependente de como se joga o jogo partidário do que do mérito que se tem - ou da perspetiva de que se poderá fazer um bom trabalho na Assembleia da República.

O que poderia ser um bom deputado? Chega ser um bom tribuno? Será preciso ter ideias? E quanto valem os contactos cá fora, o conhecimento de áreas? São melhores os académicos ou os profissionais? A verdade é que a discussão não parece fazer-se. Do que falam os media é de simples e ferozes guerras de cadeiras. Sem nunca usar a palavra tacho, claro, mas sendo sempre isso que parece estar implícito.

Neste ano há um caso que concentra as atenções. Enquanto no PS só mudam 12 dos 86 deputados, no BE há três saídas em 19, no CDS, cinco em 18 e no PCP apenas um em 15 - isto segundo os números das últimas listas - e, no PSD, dos 89 deputados eleitos em 2015, 49 estão fora das listas que foram aprovadas nesta semana pela Comissão Política Nacional. Mais de metade.

Guerras sociais-democratas à parte, esta vai ser uma história interessante de seguir. Opiniões sobre a liderança de Rui Rio suspensas, vai ser curioso perceber se uma lista renovada e em vários sentidos atrairá mais eleitorado. Para já as sondagens mostram-se pessimistas. Rio não mudou apenas as caras. Mudou as circunstâncias, apostou na renovação etária e profissional.

Deixou muitos insatisfeitos entre o establishment - como era óbvio. Menos óbvias são as críticas de fora. Quando andamos há anos a dizer que é preciso que muito mude, porque atiramos a quem não quer, aparentemente, que tudo fique na mesma?

 

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