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OPINIÃO

SEXTA FEIRA 14 DEZEMBRO DE 2018  

A sova em May e a esperteza de Corbyn

Leonídio Paulo Ferreira

Tenho de admitir que por estes dias sinto mais consideração por Theresa May do que por Jeremy Corbyn. E isto apesar de não me esquecer de que ambos fazem parte dos sonâmbulos que permitiram o referendo de 2016 sobre a União Europeia, a vitória à tangente doleave (sair) e a enorme trapalhada que são hoje as relações entre o Reino Unido e os outros 27, a uns cem dias da data do Brexit - 29 de março de 2019.

Mas May, primeira-ministra após a saída de David Cameron (o grande sonâmbulo), procura minimizar o impacto prático do divórcio, assumindo o resultado do referendo (que ela não queria) como legítimo. Bate-se agora contra tudo e todos, até aqueles no Partido Conservador que preferem o caos a qualquer entendimento com Bruxelas.

Já Corbyn, eurocético de sempre, depois de ter falhado na mobilização trabalhista pelo voto remain (ficar), opção tradicional do partido, resguarda-se de qualquer intervenção construtiva. Limita-se a ajudar à sova em May, seja prometendo votar contra o acordo com a UE seja ameaçando o governo conservador com moções de censura.

Na realidade, Corbyn, que parece ver vantagens no Brexit mesmo que por vezes o desdiga, já se imagina primeiro-ministro, mas numas eleições depois de o mais difícil ter acontecido. May que aguente a borrasca.

Há quase 30 anos que sigo a política britânica como jornalista e sei que houve tempos em que tanto conservadores como trabalhistas tinham líderes mais sábios, mais mobilizadores, de certeza. Aliás, fiz para o DN a cobertura das legislativas de 2001 e na época a única coisa a dizer sobre May é que lutava pela primeira reeleição como deputada e, no que diz respeito à Corbyn, que era uma figura da ala mais à esquerda do partido, campeão de causas como a luta anti-apartheid ou a Palestina. Voltei para as eleições de 2010, e May já se perfilava então como governante, com Cameron a escolhê-la para ministra do Interior, depois de ter pertencido a quatro governos-sombra. Corbyn, esse, destacava-se por na era de Tony Blair-Gordon Brown ter sido o deputado mais vezes contra a linha do partido.

O futuro de May é quase certo no mau sentido: a saída a médio prazo (comprometeu-se para se salvar de uma censura interna a não ser recandidata a primeira-ministra), talvez mesmo a curto. Nas eleições antecipadas de 2017 perdeu a maioria absoluta ganha por Cameron em 2015 e deixou evidente a falta de carisma para liderar o partido.

Mas o futuro de Corbyn, esse, é incerto no bom sentido: depois de derrubado uma primeira vez da liderança por uma revolta dos seus próprios deputados, os 40% nas últimas eleições, com ganho de assentos e uma subida em pontos percentuais que não se via desde 1945, ofereceram-lhe uma tranquilidade dentro de portas que lhe permite continuar a jogar, o que é evidente por nunca propor novo referendo. Mas, se chegar a primeiro-ministro, que país herdará? Um Reino Unido em conflito com a Europa? Um Reino Unido em crise económica, tal como o resto da Europa, por causa de um Brexit abrupto? Nestes dias, há razões para admirar May. Pelo menos não atira a toalha ao chão.

 

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