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OPINIÃO

TERÇA FEIRA 11 DEZEMBRO DE 2018  

"Gilets jaunes": se querem a globalização, alguma coisa tem de ser feita

Pedro Lains

Há muito que existe um problema no mundo ocidental que precisa de uma solução. A globalização e o desenvolvimento dos mercados internacionais trazem benefícios, mas esses benefícios tendem a ser distribuídos de forma desigual. Trata-se de um problema bem identificado, com soluções conhecidas, faltando apenas a vontade política para o enfrentar. Essa vontade está em franco desenvolvimento e esperemos que os recentes acontecimentos em França sejam mais uma contribuição importante.

Se há coisa em que economistas e políticos concordam há muitos anos é que a abertura de fronteiras e o comércio internacional trazem vantagens globais, mas que essas vantagens podem ser distribuídas de forma desigual, por pessoas, regiões ou nações. Assim, em determinadas circunstâncias, ganha mais quem tem recursos mais escassos, como o capital e o conhecimento, e ganha menos ou perde quem tem recursos mais comuns, como o trabalho ou a baixa tecnologia.

Até há poucas décadas, os problemas de redistribuição decorrentes da abertura foram tratados ao sabor da legítima pressão de grupos de interesse, da determinação de governos ou, em casos mais raros, de que a União Europeia é o melhor exemplo, por entidades internacionais.

Thatcher, no Reino Unido, Reagan, nos Estados Unidos, economistas em torno de instituições atávicas como o FMI, no mundo menos desenvolvido, e uma enorme panóplia de seguidores, mudaram o curso das coisas, defendendo a ideia de que a abertura internacional, afinal, não precisava de ser acompanhada. Sozinha, sem política, a "concorrência" internacional encontraria o equilíbrio necessário.

Assim não foi e o que temos hoje é a reacção dos eleitorados, mais ou menos estruturada, a essa nova realidade, de um Mundo cada vez mais aberto e cada vez menos controlado por políticas redistributivas. Perante esta realidade, várias têm sido as respostas.

O crescimento dos populismos também quer entrar nesta história, mas ele é sobretudo um problema político à procura de pretextos e a globalização é apenas um deles. A prova-lo está facto de o populismo de Mussolini, Salazar ou Hitler ter nascido num período de forte retrocesso da globalização.

Os modelos de reposta aos efeitos da globalização podem ser vistos nas três principais potências da Europa ocidental, sendo que cada uma respondeu segundo o respectivo enquadramento político, institucional e económico.

Na Grã-Bretanha, a resposta veio pelo referendo do Brexit, que mais não fez do que distrair a população com um processo complicado e sem nexo, acompanhado do "projecto medo". Na Alemanha, a resposta veio através da contenção salarial e do reforço da contratação social, permitidas pelo tracto de confiança entre sindicatos, organizações empresariais e governo, no sentido de poupanças salariais de hoje resultarem em aumentos de produtividade e de competitividade, devolvidos em aumentos salariais posteriores. Na Alemanha, os ganhadores são empresas e gestores que melhor sabem devolver lucros, já que as "elites" económicas foram praticamente varridas pelas duas guerras e pelo poder soviético. O modelo alemão de alguma forma é replicado em outros países com forte capacidade exportadora, como a Suécia ou a Polónia.

A França, é o terceiro caso de resposta aos problemas da desigualdade decorrentes da intensificação da globalização. Ao longo de mais de uma década, os sucessivos governos franceses hesitaram quanto ao que fazer. Até que chegou Macron, já visto como salvador do modelo de integração europeia, mas que prontamente mostrou outros objectivos, querendo aproximar-se da herança de Thatcher ou Reagan. Depois de mais uma dose hesitação, o Presidente francês escolheu finalmente permitir que as trocas internacionais seguissem o seu curso e favorecessem os detentores dos recursos mais escassos, em prejuízo dos demais, dos cidadãos dependentes de salários, de pensões ou de subsídios. Sem as elites do Reino Unido ou, sobretudo, da Inglaterra, sem os equilíbrios institucionais da Alemanha, a França conheceu a revolta das ruas.

As políticas de redistribuição de rendimento têm e sempre terão opositores que procuram mostrá-las como insustentáveis ou ineficientes. Mas a verdade é que durante muito tempo a Europa foi abrindo fronteiras, sendo simultaneamente a região do mundo mais desenvolvida e com mais paz social e isso foi conseguido por via da intervenção politica. É essa que tem de voltar. O mundo aberto e em paz não está para acabar se houver a devida resposta aos novos desafios. Os governos em França e na Grã-Bretanha, hoje ou amanhã, não têm outra escolha.

 

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