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OPINÃO

DOMINGO 02 DEZEMBRO DE 2018  

Palavras

Ferreira Fernandes

Palavras. Leva-as o vento mas podem ser sólidas, substantivas e marcar forte. Um dia, no começo de um qualquer governo socialista, António Vitorino disse: "Habituem-se." Curto, uma só palavra apesar de composta, mas marcou. É verdade que é lembrada só por ser uma boutade de um homem político de quem se esperava muito, quando seria bem melhor que fosse lembrada porque aquele elenco governativo era ainda hoje soletrado com fervor como uma equipa de sonho - Coluna, Simões, Eusébio e José Augusto... - o que não tenho a certeza que tenha sido o caso.

Palavras. Podem ser poderosas. Por boas e más razões, e são-no, até, importantes ou não segundo quem as diz (ou quem as ouve). Lembro-me de um homem fundamental da Cultura moderna portuguesa - porque faz frases tão, tão inteligentes, Herman José, pois - ter um dia dito que quase nunca lia livros. E disse-o para um país que lê pouco! Mau exemplo, claro. Mas que importa que ele o tenha dito e o infeliz exemplo que tenha transmitido? Apeteceu-lhe dizer, disse, e bem - as pessoas não podem viver atadas no que querem dizer. O inalienável direito de falar deve ser mesmo direito e inalienável. Quanto mais para o Herman, que em contrapartida nos cria frases desatadas e tão, tão inteligentes.

Vêm as palavras a propósito porque, volta não volta, há um ministro que as diz e lhe saltam em cima. Ponto de ordem! Não se fala aqui de frases de um responsável, autoridade ou influenciador público, que diz o que causa consequências graves de imediato. Aquela embaixadora americana ignorando o que ela representava e o mundo onde estava e que, tomando chá com Saddam Hussein, ao ouvir deste que talvez invadisse o Koweit, sorriu e pediu mais um quadrado de açúcar, será sempre chamada à pedra da História pelas suas palavras (ou ausência delas, porque foi só um sorriso) que ocasionaram o que ocasionaram, o desmantelar do Médio Oriente.

Ou aquele porta-voz do Partido Comunista da RDA que, durante uma conferência de imprensa, displicentemente indicou uma certa e exata hora para se abrir as fronteiras entre as Alemanhas, quando o seu partido ainda não sabia o que fazer com o assunto. Hora anunciada, a multidão assaltou o Muro de Berlim e mudou a História recente. Eis palavras, embora sem quererem, abençoadas.

Então, há dias, a ministra da Cultura, Graça Fonseca, a pretexto de touradas, que era do que se falava com ela em Guadalajara - assunto adequado pois era México, pátria de Carlos Arruza e, já agora, de Cantinflas, olé! -, disse que "uma coisa ótima de estar em Guadalajara é que não vejo jornais portugueses". Palavras. Poderíamos trazê-las para aqui pelo incidente diplomático, que felizmente não houve, por, para dar predicados à capital de Jalisco - caramba, tem a catedral, o casco histórico e as melhores tortillas a oeste da Sierra de Pénjamo! -, a ministra lusa precisou de invocar argumentos nacionais para justificar a sua felicidade.

Por outro lado, também poderíamos não criticar Graça Fonseca, mas aplaudi-la pela linguagem solta. Que tão bem calha na grande área que tutela, a Cultura. Já não disse eu que é culto dizer frases desatadas, sem gravata, sobretudo do lado de dentro da garganta? Quem nos dera haver mais ministros a dar a volta a jornalistas que querem interpelá-los sobre alhos e serem respondidos com bugalhos. Dias antes, o líder do PSD, Rui Rio, fez também isso, mas em alemão. Prefiro esses exercícios em português, como o praticou Graça Fonseca.

Prós e contras contados, porém, ficou de balanço um deve tremendo por parte da ministra da Cultura. Não, o incidente diplomático não aconteceu e não apareceram colunas de tapatíos (o gentílico para guadalajarenses) na fronteira do Caia a tentarem invadir-nos, não para arranjarem vistos de trabalho mas para pedirem explicações sobre o desaforo a Guadalajara. Não, as palavras dela não terão consequências históricas horríveis, como as da embaixadora americana em Bagdad, nem as consequências maravilhosas do engano do porta-voz comunista, em Berlim Oriental. Mas o que ela trouxe à baila está ligado a um acontecimento histórico que, resolvido, será radiante; se não, um drama que pode descambar em tragédia.

Desatenta manifestamente à crise dos jornais, a ministra da Cultura permitiu-se misturar não ler jornais portugueses com fazer derivar desse facto o poder atingir-se o êxtase. Publicidade enganosa. Não viria mal ao mundo esse não saber - que sabe, e porque teria de saber, Graça Fonseca sobre problemas dos enfermeiros? - não fosse ela ser ministra da Cultura, isto é, com a tutela dos jornais. Dias depois deste descuido da ministra, muitas críticas caíram sobre ela. Geralmente palavras levezinhas, como é costume nas querelas esquerda-direita, picadas de pingue-pongue que calham aos políticos de direita-esquerda, quando metem o pé na argola.

Calhou, porém, nestes dias, Marcelo Rebelo de Sousa, no acaso de uma entrega de prémios jornalísticos, ter trazido esta guerra de alecrim e manjerona para o seu devido lugar. Grave. É que o jornalismo português está agónico. Por culpa dos patrões dos jornais, dos jornalistas, da crise histórica do jornalismo pela revolução na indústria trazida pela internet, por causa do hábito antigo de não se ler, pelo novo hábito de não se ler, por isto, por aquilo... Com uma certeza certa, mostrou Marcelo: o jornalismo é cada vez mais necessário, sem ele não há democracia.

Dito isto, é só encontrar soluções. A ministra da Cultura já tem uma: não diga nunca mais que se alegra por não encontrar jornais portugueses por perto.

 

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