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OPINIÃO

SEGUNDA FEIRA 24 DE SETEMBRO DE 2018  

O que Salazar pensava de nós

Viriato Soromenho-Marques

Cinquenta anos depois da morte política de Salazar muito continua por estudar na vida do homem que governou Portugal durante 40 anos. A notável biografia publicada em 2009 nos EUA, por Filipe Ribeiro de Meneses, deixa sugestivas pistas para trabalhos complementares. Hoje, só por tenaz preconceito é possível misturar sem matizar Salazar na galeria dos ditadores do seu tempo.

Quem conhece as biografias de Hitler, Mussolini, Franco ou, saltando a barreira ideológica, Estaline ou Mao não encontra muitas semelhanças no confronto com as palavras e os atos de Salazar. Muitos seus contemporâneos perceberam isso, mesmo estando em quadrantes políticos bem distintos. Uma das opiniões mais surpreendentes é a de Dean Acheson, secretário de Estado do presidente Truman (entre 1949-1953) e voz escutada nas administrações de Kennedy e Johnson - um dos arquitetos daPax Americana no auge do seu poderio material e espiritual.

Sobre o despotismo elitista de Salazar escreveu Acheson este ambíguo encómio: "Este homem notável é a versão contemporânea mais próxima do filósofo-rei de Platão." A ditadura de Salazar não foi construída sobre as valas comuns de Franco, o ódio da ralé contra os judeus, como em Hitler, ou o terror indiscriminado sobre o seu povo, como em Estaline. Pelo contrário, o salazarismo mergulha no húmus conservador nacional, fazendo do "viver habitualmente" uma das suas bandeiras, perante uma população que tinha experimentado os 16 anos de guerra civil de baixa intensidade da I República.

Salazar chegou ao governo, em 1928, sem ferir as mãos na luta política. Por convite de Carmona e convénio com o último resíduo da autoridade do Estado, as Forças Armadas (o que restava do seu regime cairia em 1974, quando as baionetas se desobrigaram do contrato). Salazar não se limitou a sanear as Finanças e a fazer do escudo uma moeda de reserva internacional. Ele recriou o Estado de uma ponta à outra: a sua Constituição, as instituições políticas, a máquina repressiva, as organizações corporativas, de juventude, de mobilização paramilitar, como a Legião, e todo o aparelho ideológico e de propaganda. A sua aparente reserva pessoal, roçando a timidez, contrastava com o desembaraço na edificação de um regime que não só refletia as suas convicções políticas como espelhava o seu pessimismo antropológico e o seu paternalismo em relação ao carácter de um povo em que, como escreveu em 1944: "A Nação [é] acessível a todos e o Estado a muito poucos." Em muitos aspetos, o salazarismo assemelha-se aos despotismos do século XVIII. Até no facto de o seu regime não ter praticamente sobrevivido ao seu criador.

Depois de ter evitado, com génio estratégico, que Portugal tivesse sido devorado pela Guerra Civil Espanhola e/ou pela II Guerra Mundial, conseguindo mesmo fazer de Lisboa um dos fundadores da NATO, Salazar resistiu obstinadamente a todas as oportunidades para deixar o governo, acreditando apenas em si próprio. A prudência das primeiras décadas esfumou-se numa política ultramarina inflexível que desperdiçou anos de manobra política possível ganhos duramente pelo esforço de guerra.

Em 1975, um país mantido no analfabetismo político quase se dilacerava num conflito fratricida, sob um surto febril de um leninismo crepuscular no resto do mundo. Na verdade, Salazar ilustra bem como os povos pagam sempre um preço pelos seus líderes. Não só pelos venais e medíocres, como também pelos que se alcandoram ao estatuto de indispensáveis.

 

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