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OPINIÃO

SEGUNDA AFEIRA 07 DE MAIO DE 2018  

Maio, o desejado

Por Ferreira Fernandes

Amanhã, 3 de maio, é que começou o "Mai68". Uma das suas imagens de marca são as barricadas de Paris e as primeiras foram nesse dia. Mas encerrar aqueles acontecimentos entre essa data, 3, e o dia 30, quando o presidente De Gaulle discursou e inverteu o processo revolucionário, só tem como vantagem emprestar a coincidência de um grande e perturbador acontecimento histórico parecer ter respeitado um calendário mensal quase inteiro. Não foi assim: o nascimento do maio francês de 68 nem foi na Europa e aconteceu em data indeterminada ao longo do ano anterior. Já vamos tarde para comemorar o cinquentenário de uma "nova classe social", como lhe chamou o sociólogo Edgar Morin, o mais atento testemunho do impetuoso aparecimento dos jovens na política mundial. A escolher um lugar, o campus da universidade na californiana Berkeley, onde os adolescentes lutaram contra a autoridade professoral. O que nos evoca uma cruel ironia caseira: por cá, decorrido meio século, Berkeley, o berço da contestação jovem, foi recentemente badalada por um escândalo nacional com base no respeitinho parolo pelos diplomas, mesmo os falsos... A causa próxima dessa revolução foi das mais comuns. O Golias de então (o império americano) estava a ser derrotado; e o David (os vietnamitas) estava suficientemente longe para não mostrar o lado negro da sua ditadura, mas bem perto, nos telejornais, para ser visto como pequeno herói resistente. A esse conflito juntou-se a falta de comparência do outro império, Moscovo, por estar desacreditado como candidato a novo Golias... Desde 1967 e ao longo de todo o 1968, houve maios 68 nos Estados Unidos, Brasil, Itália, Polónia, México... E o francês cunhou a marca porque soube teorizar a herança, a utopia; soube evidenciar os seus protagonistas, como o jovem Cohen-Bendit; deixou herdeiros, como a luta pela igualdade das mulheres. E, sobretudo, acabou bem. Há semanas, escrevi sobre o belo testemunho de um filho de maio, que lá não esteve. Em filme-documentário, o brasileiro João Moreira Salles escreve à mãe, já falecida, desejando que ela tivesse vivido a explosão radiante, o êxtase histórico daqueles dias de maio. Ao documentário chamou-lhe No Instante Agora. São tão raras as revoluções que até às mães as desejamos...

 

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