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EDITORIAL

SEXTA FEIRA 14 DE JULHO DE 2107  

Quantos são? Quantos são? Por Jão Taborda

Cem por cento da polícia é boa e dois terços dos criminosos são negros - isto era a conclusão a que eu chegaria sobre a criminalidade em Portugal baseado na minha experiência. Só que eu sou branco, e rico, e as conclusões não podem resultar da nossa vidinha. E em rigor ninguém faz ideia se os negros cometem mais crimes nem se há racismo policial em Portugal porque ninguém sabe quantos negros, brancos, asiáticos, há em Portugal.
Cresci no Lumiar, andei em escolas públicas no Lumiar, e tive uma educação sem trela no meio da rua e dos anos oitenta, rodeado de bairros de lata e a droga começava a entrar. Havia tentativas de assalto, à porta da escola, nas traseiras dos prédios, nas paragens do autocarro, na "mata" (hoje a Quinta das Conchas e dos Lilases), nas inúmeras arcadas, passagens e túneis com que a arquitetura dos anos setenta e oitenta nos brindou (ah, Jane Jacobs, se eles te tivessem lido). Dinheiro, relógios, blusões, ténis, carteiras (uma carteira Dunas era um bem raro). As histórias eram diárias. A maior parte das vezes aplicava-se a prevenção: correr e só parar em casa, mudar de passeio, mas sobretudo correr, correr muito. Por vezes, poucas, o confronto. Em algumas, menos ainda, ser assaltado, no meu caso duas. A primeira, um Swatch com uma navalha, um branco franzino, passa para cá o relógio senão.... Passados uns anos, tinha 13 ou 14 ou 15, fui cercado por um grupo de negros, encostado a uma parede com uma navalha enquanto era revistado, se gritares corto-te a piça e não te chibes a ninguém, fiquei sem cinco contos, que levava para o barbeiro, que a minha mãe não tinha mais pequeno, quero esse troco todo quando chegares, não chegou nada.
Da vez dos cinco contos fiz queixa à polícia, orgulhoso do buraco nos jeans feito com a ponta da naifa (ponta e mola), e passei uma noite no carro da polícia a fazer rondas pelos bairros (uma rapariga veio queixar-se da violência do marido e eles disseram, agora temos este rapaz aqui, mas a gente já cá volta para tratar dele e lhe ensinar umas coisas); passado um tempo, fui chamado a reconhecer um dos assaltantes na esquadra, depois o primeiro julgamento na Boa Hora, em que fui metido numa sala com os familiares do dito e tive de desaparecer dali antes de me fazerem o que estavam a dizer que me iam fazer, e por ter faltado ao julgamento, um segundo julgamento em que fui para o tribunal detido pela polícia por ter faltado ao primeiro, passando uma manhã na esquadra de Telheiras, e sendo transportado num daqueles Fiats da PSP com uma prostituta que ia ser julgada por uma coisa qualquer (neste segundo julgamento, já não misturaram as testemunhas com o público). E que grande manhã, a ouvir histórias, a pedir para ver as armas, a ouvir as conversas. E também por isto sempre gostei de polícias, mesmo quando levei aquela bastonada a sair do Benfica-Sporting sobre a qual escrevi neste jornal (Cabeça Limpa).
O que se passou na Cova da Moura é bárbaro. Claro que falta julgar e apurar tudo ao mais ínfimo pormenor, mas não é preciso ser um especialista em processo penal para percebermos que esta acusação não teria saído de ânimo leve, que o Estado tem sempre, e bem, mais cuidado em julgar-se a si próprio. E isso é a primeira lição positiva: que o Estado policiou os seus, que o Estado vai julgar os seus. Mas o que é preciso saber, perceber, pelo menos tentar, é se são casos isolados ou se são estruturais. Ou seja, saber se a violência policial contra negros existe de uma forma diferente daquela que existe contra brancos, se é mais ou menos. Vendo este caso, diríamos que sim, e a reportagem da Fernanda Câncio ontem aqui no DN, impressionante, aponta para racismo e abusos, um excesso de pedidos de identificação e paragens para revistar. Uma versão lusa do "stop and frisk", que nos Estados Unidos tem sido descontinuada por cada vez mais se provar que não reduz a criminalidade e que é usada desproporcionalmente contra jovens negros (aliás, foi inventada para isso).

A consequência da violência policial racista que se lê na reportagem da Fernanda Câncio está com muita força no Killing in the Name, dos Rage against the Machine - quem mata alegadamente em nome da lei, quem violenta só porque tem um crachá, deixa de ser obedecido. E, sem obediência, não há autoridade.
Ninguém duvida de que há racismo em Portugal de vários tipos, mas também daquela pior espécie que é o racista que não crê ser. E isto não é apenas aquele racismo contemporizador de perguntar a todos os africanos nas universidades portuguesas se vão ser ministros quando voltarem para o país deles. É um denial institucional, uma amnésia de Estado, que se crê tão pouco racista que se recusa a saber que percentagem da população não é branca. Dizem que é por uma questão de proteção de dados, por uma questão de proteção da dignidade dos próprios, uma idiotia completa que impede qualquer estudo rigoroso sobre o racismo e a discriminação. Como é que eu posso saber se os negros são discriminados nas entrevistas de emprego, na violência policial, nas condenações em pena de prisão, nos rendimentos sociais, se eu não sei quantos negros há em Portugal?
É desejável estarmos sempre do lado da polícia contra os ladrões, é desejável tentar compreender o que é ser polícia e ser morador na Cova da Moura, mas nunca desculpabilizar o crime que lá existe, o dos moradores e o da polícia. Não, uma mão não lava a outra, ambas estão sujas e ambas têm de ser limpas, na justa medida da sujidade. Nem mais, nem menos. Mas comecemos por saber quantos são. Ou melhor, quantos somos.

 

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