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EDITORIAL

QUINTA FEIRA 13 DE JULHO DE 2107  

O ISIS não morreu em Mossul

Por Bernardo PIres Lima

O simbólico destrói. Em julho de 2014, o líder do ISIS, Al Baghdadi, anunciou o califado na mesquita Al-Nuri, em Mossul. Três anos depois, a sua destruição às mãos do mesmo ISIS acelerou o anúncio do primeiro--ministro iraquiano da "libertação" de Mossul. A grande cidade norte-iraquiana da "coexistência pacífica" está oficialmente libertada, mas tristemente dizimada. Sobram poucos edifícios, a crise humanitária é gritante, sem água, luz e trabalho, e um milhão de pessoas foram deslocadas. A curto prazo, só em infraestruturas, Mossul precisa de mil milhões de dólares. Destruí-la do ar foi a parte mais fácil, reconstruí-la em terra vai ser muito mais difícil.
Porquê, então, Mossul? Segunda maior cidade do Iraque e maioritariamente sunita - atrativo extra num país de maioria xiita -, Mossul era e é estratégica no controlo da água (tem a maior barragem do Iraque e a quarta do Médio Oriente) e do pipeline para a Turquia, além de ficar a 150 quilómetros da Síria, o que permitia controlar dois territórios de fronteira diluída, revolucionar o mapa do último século no Médio Oriente e demonstrar a facilidade com que ocupam território após a retirada das tropas americanas. O sucesso em Mossul e a fundação do califado terão inspirado milhões de aprendizes pelo mundo fora, potenciando células jihadistas já existentes na Europa ou motivando terroristas espontâneos a entrar no olimpo do terror: Paris, Bruxelas, Nice, Bruxelas, Berlim, Manchester e Londres demonstraram isso.
Daqui resulta a segunda pergunta: porquê reconquistar Mossul? A resposta parece óbvia. Mossul é um capítulo militarmente decisivo neste ciclo de recuperação territorial no Iraque - depois de Fallujah, Baiji, Ramadi, Jalawla, Rutba, Sinjar ou Tikrit - no sentido em que o ISIS perde controlo do seu quartel-general local e dos recursos estratégicos da cidade. Além disto, o ISIS vê-se obrigado a ir em socorro do seu contingente sírio para proteger Raqqa, a sua base mais importante na região, além de outras possessões ao longo do Eufrates. As notícias que dão conta das centenas de barbas rapadas nos últimos dias antes da queda de Mossul, para que a camuflagem entre as comunidades locais se faça, indicia uma dispersão de operacionais mas não a captura nem a deserção. Para além disto, dados compilados sobre o que sucedeu à "libertação" de 16 cidades sírias e iraquianas antes de Mossul indicam que a violência não para por artes mágicas nem que o ISIS baixa a guarda. Por exemplo, em Baiji, a norte da petrolífera Tikrit, nos 500 dias posteriores à reconquista pelas tropas iraquianas, deram-se em média 20 ataques por mês, o que resultou em mais de 400 mortos. Já, por exemplo, em Jurf al--Sakhar, a sul de Fallujah, nos 900 dias depois da sua reconquista, apenas foi registado um ataque, sem quaisquer vítimas. Ou seja, além de não existir um padrão pós-libertação, o que dificulta a metodologia na resposta do Estado, há cidades mais apetecíveis do que outras para a desforra do ISIS. Mossul, pela sua importância, está à cabeça, por isso todo o cuidado é precário. Talvez seja pertinente transformar a pergunta "porquê reconquistar Mossul?" em "para quê reconquistar Mossul?" Digo isto por uma razão simples: é que passe a evidência da necessidade que o Estado iraquiano tem de exercer soberania em todo o território, permanece uma total incógnita sobre a forma como o fará agora em Mossul. Na última década, na ressaca do pico da guerra civil 2006-2007, o xiismo agressivo do governo foi de tal maneira sectário e violento sobre as comunidades sunitas espalhadas pelo país, que não há confiança sobre o regresso de Mossul a mínimos de "coexistência pacífica" entre etnias. Acresce a isto a perseguição em curso a famílias de membros do ISIS capturadas, muitas delas à margem da radicalização dos terroristas. E se tivermos em conta a emergência da Unidade de Mobilização Popular (xiita) como força de elite decisiva na tomada de Mossul, a capacidade operacional dos peshmerga, os grupos sunitas no exército iraquiano, o modelo pouco inclusivo da administração em Bagdad, já para não mencionar a influência turca, iraniana e saudita na defesa intransigente dos seus interesses no país, pode celebrar-se a expulsão do ISIS mas não a alvorada de uma fase nova no Iraque.
Então, e agora, ISIS? É provável que muitos regressem à jihad na Europa, Norte de África, Ásia Central e Sudeste Asiático. Trabalho não lhes faltará e a perda de Mossul pode até dificultar a monitorização do trânsito terrorista e seu financiamento, dada a dispersão geográfica e a instabilidade na coordenação de informações entre os governos nessas regiões. Esta é também uma oportunidade para a Al-Qaeda recuperar mediatismo, na lógica concorrencial com o ISIS, seja com ataques sofisticados, recrutamento de jihadistas ou retoma de fluxos financeiros. Uma outra hipótese pode passar por uma espécie de fusão entre os dois grupos, fortalecendo uma só marca apocalíptica. De qualquer forma, dado que a Al-Nusra síria cortou há um ano o cordão com a Al-Qaeda, podemos estar num roteiro de dispersão de comandos, concorrência e equilíbrio maiores no mercado da jihad, o que leva a que mais provas de vida tenham de ser dadas. Se decretarmos a morte do ISIS em Mossul, é sinal de que não percebemos nada do que ele realmente vale: bem mais do que um exército, uma marca forte de apocalipse revolucionário.

 

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